
Este ano completo 20 anos de atuação no mercado náutico nacional, minha família mais de 40! Desde que nasci me lembro de estar junto ao mar: seja na praia, dentro de um barco, navegando, assistindo meu pai velejar ou ancorado em alguma marina ou iate clube. Carregamos um nome que é sinônimo de credibilidade, qualidade e confiança no meio náutico. Reputação construída após 3 geracões de um família com grande tradição náutica, fundadora das marcas: Tecnomarine, Symbol, Spirit Ferretti, Superboats, Ferretti Brasil, AC Broker e Yachtnet.
Nosso maior ativo para chegar até aqui foi a nossa credibilidade, espírito empreendedor, habilidade comercial, expertise e o alto nível de conhecimento do universo náutico. Esta tradição vem de longe, começou aqui no Brasil no início do século passado com meu avô, Sr. Márcio Christiansen, que era descendente de dinamarquês e portador de um DNA que remete em tempos remotos aos famosos ‘Vikings’ (os navegadores e exploradores pagãos mais antigos do mundo).
‘Seu Márcio’, como meu avô era conhecido, foi um dos primeiros sócios do Iate Clube de Santos na década de 70 quando começou a surgir a cultura náutica de lazer no Brasil, assim como os primeiros estaleiros e barcos de lazer fabricados no Brasil. Quase 20 anos depois, em 1988, saiu do papel o projeto de seu primeiro iate de grande porte: era uma Carbrasmar 71 pés chamada ‘Carisma’. A embarcação foi projetada e construída no Brasil na época pelo renomado estaleiro nacional Carbrasmar e customizada por ele próprio. Após 32 anos do desenho da planta deste barco e 3 gerações depois esta relíquia foi devidamente enquadrada e encontra-se hoje pendurada na parede da casa de um de seus 7 filhos, sr. Aloisio Christiansen (meu pai).
De lá para cá muita coisa mudou. O mercado se transformou e se profissionalizou. Novos estaleiros abriram e prosperaram. Outros abriram e fecharam. Alguns estaleiros daquela época estão vivos até hoje como é o caso da própria Carbrasmar e da famosa Intermarine. Após a criação do Real e a abertura do mercado brasileiro para marcas estrangeiras em 1994 com o dólar ainda baixo durante o curto governo do Presidente Collor, uma avalanche de barcos importados começou a desembarcar no Brasil e muitos estaleiros morreram e deram espaço a novos estaleiros. Foi um período de grandes transformações industriais no país, e na náutica também, consequentemente.
Apesar de ainda ser considerado um mercado elitizado e restrito à poucos, a cultura náutica no Brasil definitivamente se concretizou e passou a fazer parte da vida dos brasileiros após este período. Estaleiros nacionais e internacionais se instalaram aqui, novas marinas e iates clubes foram inaugurados, publicações especializadas e salões náuticos nos moldes americanos (os chamados boat shows) surgiram e o mercado como um todo começou a crescer e se profissionalizar cada dia mais.
Mas infelizmente nem tudo são rosas. Apesar de estarmos no caminho certo o mercado náutico nunca chegou a se profissionalizar 100% de fato, como foi o caso de muitos mercados mais maduros e rentáveis; como o da construção civil, ou automobilístico, por exemplo. Por se tratar de um mercado muito pequeno em termos de faturamento e nro. de players, bem como o nro. restrito de compradores de barcos, o mercado ainda engatinha em questões fundamentais como a falta de transparência, ética, regulamentação, segurança jurídica, infra-estrutura náutica e incentivo à indústria náutica como um todo por parte do Estado brasileiro.

Esse “imbroglio” é extremamente nocivo ao mercado náutico brasileiro, uma vez que permite que supostas empresas e corretores que se dizem “profissionais” obtenham vantagens comerciais pela falta de clareza e regras claras de operação no setor. Em função dessa desorganização, infelizmente o mercado foi inundado de aproveitadores, profissionais despreparados e até mesmo marinheiros mal intencionados, que além de trabalharem em regime de CLT, terem salário fixo e estabilidade no emprego; muitas vezes também resolvem fazer corretagem (ou atrapalhar o trabalho do broker) quando o patrão vai trocar de barco – não cabendo a esses profissionais esta função.
Basicamente, de um lado temos profissionais que não são profissionais e só estão nessa para ganhar dinheiro fácil, e do outro compradores que se aproveitam dessa situação confusa para adquirir embarcações sem pagar comissão, ou pagando uma taxa de comissionamento abaixo dos padrões de mercado, que não condiz proporcionalmente ao valor do bem adquirido. O mercado se “prostituiu” e o resultado muitas vezes é nocivo e prejudicial a todos: tanto aos antigos consumidores quanto aos novos que entram no mercado pela “porta dos fundos”, assim como prejudica também os bons profissionais que tanto se empenham em levar boas ofertas para seus clientes e realizar transações saudáveis e seguras. Muitas vezes esses profissionais que fazem todo esforço de venda e trabalham um cliente durante meses acabam sendo “atravessados” no final do processo depois de transmitir todas as informações ao cliente sobre o barco interessado e/ou seu proprietário.
Não é à toa que ao longo dos últimos anos no Brasil surgiram vários processos de corretores ou empresas de corretagem de barcos contra vendedores ou compradores que agiram de má fé e hoje em dia praticamente todas as empresas sérias de intermediação de negócios náuticos do mercado tem assessoria jurídica para que tais práticas nocivas não aconteçam. Vale lembrar que a comissão é um tipo de pagamento previsto pela CLT e pela lei nº 3.207 de 18 de julho de 1957, que regulamenta as atividades dos vendedores.
Por volta de 2015, algumas iniciativas positivas foram realizadas com o intúito de minimizar tais desentendimentos e profissionalizar o trabalho do broker náutico, a primeira foi a fundação da ABRACORE (Associação Brasileira dos Corretores de Embarcações) e a segunda, correndo em paralelo com a primeira, foi a criação do BROKER ACOBAR.
O objetivo da primeira foi estabelecer relações entre todos os vendedores de embarcações, estabelecer regras entre todos os associados participantes e, com isso, promover um negócio de alto nível, com mais segurança, tanto para quem vende como para quem compra. Para isso deve haver uma regra clara e uma união entre os membros. A iniciativa foi no sentido de dar segurança a quem coloca o barco para vender com um dos brokers associados e dar segurança jurídica e comercial para quem está comprando o barco. Os participantes são profissionais com vasta experiência no mercado e essa associação buscou trazer maior liquidez para o mercado. Um mercado difícil, num momento econômico complicado do Brasil que, ao mesmo tempo, foi importante para uma reflexão e ter a certeza de que alguma coisa deveria ser criada.
Já a segunda foi uma iniciativa que partiu da própria ACOBAR (Asociação Brasilera dos Construtores de Barcos), que visou formar e credenciar profissionais com grande expertise em corretagem (compra e venda) e intermediação de embarcações no Brasil. A missão de um broker profissional certificado pela ACOBAR – como é o meu caso e o caso da Yachtnet – é prestar todas as informações necessárias para o bom andamento do negócio e acompanhar toda a negociação até a assinatura do contrato, analisando, criteriosamente, toda a documentação que envolve a venda da embarcação.

Mas afinal, qual é a diferença e/ou vantagem pro consumidor na hora de comprar um barco por intermédio de profissionais credenciados ou com pessoas que atuam por conta própria?
Hoje o cliente deixa o barco para vender com quatro ou cinco corretores, bons ou ruins, as vezes até com uma pessoa que nem é do ramo ou pertence ao ramo imobiliário, marinheiro – que tem seu papel muito importante no sistema, mas não tem alcance necessário em relação à questão jurídica e não está preparado para dar segurança ao negócio – e essas pessoas vão trabalhar a venda do barco com os clientes deles. O que estas associações propuseram (sem sucesso até agora diga-se de passagem) é que a capitação seja obrigatoriamente com exclusividade através de um broker credenciado, como acontece nos EUA e na Europa, por exemplo. O cliente disponibilizaria o seu barco apenas para um corretor, com cláusula de exclusividade. Esse corretor cadastraria o barco no site da associação, e o mesmo seria amplamente divulgado, teria cobertura de mídia e cerca de 100 a 150 associados iriam trabalhar a venda desse barco por todo o Brasil, trabalhando em regime de parceria caso o negócio se concretizasse envolvendo mais de um vendedor. Isso não teria nenhum custo adicional para ninguém. A idéia na teoria era positiva, pois ao invés de trabalhar com um pequeno número de corretores (e até gerar um conflito entre eles), o negócio seria facilmente administrado, com um poder de venda muito maior.
Infelizmente na prática não foi isso o que aconteceu e apesar do profissional credenciado (que é membro dessas associações) passar uma maior credibilidade pro cliente, as operações de corretagem continuam sendo feitas do mesmo jeito. Até hoje as mesmas histórias se repetem: clientes que compraram barcos usando informações privilegiadas de brokers e não pagaram comissão, ou brokers desqualificados que venderam barcos com procedência duvidosa, arrolados em dívidas, com documentação falha ou com ítens avariados que o comprador não viu, lesando pessoas idôneas e muitas vezes prejudicando o bom funcionamento do mercado como um todo.
Na minha visão esse tipo de prática anti-ética deve acabar!
O “jeitinho brasileiro” não pode mais fazer parte de um mercado tão próspero e com tanto potencial como o mercado náutico, que gera tantos empregos diretos e indiretos e tanto anseia por um crescimento sustentável e duradouro.
Existe uma máxima – na qual eu busco praticar diariamente em minha vida e nos meus negócios – que diz que sem incluir ao menos o bem-estar do próximo em sua prosperidade, você jamais será idealmente próspero. Não estou falando só de dar dinheiro desinteressadamente a pessoas carentes, mas do sincero interesse em ajudar os outros a ajudarem a si mesmos. Isto inclui todas as pessoas nas quais nos relacionamentos, seja amorosamente ou profissionalmente. Então você verá uma tremenda lei de oferta operando em sua vida. Independentemente da situação em que se encontre, a lei da colheita dos frutos que semeou estará sempre com você, ajudando-o.
Dito isso, não podemos mais permitir relações comerciais paquidérmicas – seja de vendedores, intermediadores ou compradores – que sempre exploram as fraquezas do nosso mercado para obter vantagens em causa própria. Apesar de toda conturbação causada pelo novo coronavírus na vida das pessoas e nas economias mundiais, o mundo está mudando para melhor e precisamos mudar junto com ele. Como brasileiros e amantes do mar, precisamos acabar com as práticas erradas e o “jeitinho brasileiro” e dar lugar a uma cultura de humildade e respeito pelo trabalho dos bons profissionais. Somente desta maneira estaremos fortalecendo e consolidando o mercado náutico brasileiro, atraindo novos amantes náuticos e navegando em mares mais tranquilos junto às pessoas que tanto amamos.
Conrado Christiansen
